Rostos sem nome...
Já sonhei com pessoas que nunca vi e que provavelmente nunca irei ver, porque não existem.
E esse facto incomoda-me.
Como posso sonhar com pessoas que nunca vi, que não irei possivelmente ver e das quais não sei absolutamente nada?
Os meus personagens de sonhos (mais ou menos felizes) não têm futuro nem passado. E o único presente é aquele que eu testemunhei enquanto estava sob o sono.
Só lhes conheço os contornos do rosto e do olhar, por vezes, angustiante ou sedutor que me eram lançados, enquanto me dobrava no meio dos lençóis.
Não sei se são felizes, se são inteligentes, se são sensatos e divertidos. Nem tão pouco se têm família ou vivem sozinhos, se tem medos ou se a falta de alguém no mundo os fez perder o zelo pela vida e os tornou em aventureiros que arriscam a vida por nada.
Será que a muitos e muitos quilómetros daqui estará o rosto que me visitou a noite passada? E se estiver, terá sonhos angustiantes como os meus? E sonhará comigo? E se estiver e for como eu o imaginei, ou sonhei, ou pintei?
Terá o mesmo olhar profundo e inesquecível e saberá abraçar de uma maneira tão forte como aquela que quase senti na outra noite?
Talvez.
Mas, e, se realmente existir, de acordo com as lembranças que tenho dele?
O rosto, o abraço e o desconhecido?
Se não souber o seu nome, nem a sua historia de vida?
Se ele próprio não souber por quem luta na vida, apenas porque está sozinho?
Se não tiver nada nem ninguém, nem mesmo o reconforto de saber quem é?
Como será?
Deve ser mil vezes pior do que o vazio que sinto ao acordar e saber que aquilo com que sonhei só foi angustiante e vazio, porque
todos os rostos que vi, não tinham nome e eu nunca os poderia procurar.
Deve ser muito pior a angústia de não saber procurar por nós do que pelos outros. Felizmente, sei o meu nome e para onde vou. E hoje, estou certa de que o caminho por onde vou daqui para frente tem um nome e o nome que quero.
Inês Henriques
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
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